"E pra Marrocos eu que vou,
e o Mundial eu vou vencer,
e as Marias eu vou zoar,
quando chegar em BH,
VAMOS, VAMOS, MEU GALO!", cantavam os pouco mais de 15 mil atleticanos mais esperançosos do que nunca estiveram, em 105 anos, em conquistar o mundo. Não foi desta vez.
O que parecia improvável, inconcebível, impensável, de alguma forma, por algum motivo, aconteceu. A chegada à final do Mundial Interclubes contra o temido Bayern de Munique foi vetada por um time raçudo, incansável, apoiado por sua fanática e barulhenta torcida: o Raja Casablanca, o "Galo Árabe", nas suas devidas limitações. O então desacreditado time marroquino entrou em campo sabendo exatamente o que iria ter que fazer para vencer o Campeão da América. Postou-se em campo como um "time pequeno", com seu sistema defensivo formado por 10 jogadores, sempre atrás da linha da bola, esperando somente o erro do adversário, cujo futebol era completamente desconhecido por sua torcida. O Galo entrou em campo literalmente com medo, sem segurança, incerto do que iria fazer. Seus jogadores, que tanto mostraram na campanha espetacular da Libertadores, provavelmente não viajaram ao Marrocos. Viajaram jogadores que pareciam perdidos, estreando em um campeonato importante. Na verdade, havia realmente um nesta situação, o lateral-esquerdo Lucas Cândido. No primeiro tempo, o Raja fez todas as suas jogadas nas costas do garoto de apenas 19 anos, que bancara outrora o experiente Júnior César. Infelizmente, Cuca errou. Lucas não acertava os botes, não recompunha como devia a marcação, e pouco rendeu no ataque. Seria por este fato isolado a derrota? Improvável.
Assim como Lucas, todos estavam perdidos, no mínimo, até a segunda etapa. Brilhos esparsos de Fernandinho no primeiro tempo resumiram o péssimo início de jogo. Jô, irreconhecível (até mesmo comparado aos tempos de Internacional), perdeu duas chances de gol claras, que pesaram no resultado da partida. O time do Raja Casablanca, ao contrário, tinha um centro-avante rápido, ligado no jogo, que não disperdiçou na chance que teve numa jogada de contra-ataque. Chute cruzado de Iajour no canto de Victor (que Lucas Cândido não conseguiu impedir), 1 a 0. Cuca precisava agir, e rápido. Mas então, por quê não o fez? Por que teimou em permanecer com o time frágil e exposto daquela forma? "Por quê"? Na minha opinião, a omissão diante do que estava ocorrendo foi, certamente, o erro crasso de Cuca.
Na segunda etapa, o Galo pareceu estar ligeiramente mais ligado, mesmo sem alterações, provavelmente em função de o nervosismo ter parcialmente passado. Porém, não passava nem perto do necessário para fazer uma partida merecedora da vitória. De novo, isoladas jogadas de Fernandinho eram as únicas chances do Galo. Até que, em uma delas, o zagueiro do Raja comete falta, na entrada da área. Todos os olhos se voltam para o gênio, o mito, o espetacular Ronaldinho Gaúcho (cujo nome não citei anteriormente por indiferença, em razão de seu apagado 1º tempo). Todos no estádio e no mundo sabiam o que iria acontecer. Cobrança perfeita no contrapé do goleiro, beliscando a trave antes de entrar "no fundo do barbante", como narra Mario Henrique Caixa, 1 a 1. Nas arquibancadas, os cânticos em quatro línguas diferentes da torcida marroquina foram substituídos por duas palavras que nos enchiam de esperança: "EU ACREDITO!! EU ACREDITO!!!".
Empolgado diante do empate, o Atlético esboçou tomar conta do jogo como o fazia nos jogos que fazia na América do Sul. A euforia tomou conta dos jogadores alvinegros, que mal tiveram tempo para saber o que estava havendo. Entra Luan, sai Marcos Rocha, indignado com a substituição. Entra Leandro Donizete, sai Josué. Cuca melhorou o time, mas tarde demais para um resultado que surtisse efeito.
Pressão do Galo em busca do empate, e novamente em contra-ataque pelo seu lado esquerdo, o Raja Casablanca armou uma bela jogada, na qual o atacante entrava na área do Galo... pênalti. Réver, que mal encostou no jogador do Raja, tomou o cartão amarelo, e dele, e de mais 8 milhões, tomou conta o desespero. Pênalti duvidoso, novamente perto do final da partida (38 da 2ª etapa). Moutouali, craque do Raja Casablanca, que não tinha nada a ver com a marcação duvidosa da penalidade, não deu chances ao goleiro Victor, e ampliou, 2 a 1.
A partir deste momento, não havia mais cantos brasileiros. Não havia mais disposição tática brasileira. Não havia mais futebol brasileiro. Mas sim o desespero de 8 milhões, apreensivos, e 11, afobados. Lançava-se o Clube Atlético Mineiro todo ao ataque, inconsequente, cego pela sede de vitória. Cuca colocou Alecsandro no lugar de Lucas Cândido, verticalizou completamente o jogo a procura de uma bola aérea, e desguarneceu de vez a defesa. Pagou caro. Em mais um contra-ataque, o mesmo craque do pênalti conduziu a bola até proximidades da meta de Victor, e, com rara categoria, encobriu-o. Na trajetória da bola, todos os atleticanos pensavam em sintonia: "Meu Deus, que humilhação". Por sorte, Deus foi misericordioso na medida do possível; a bola pegou no travessão, e sobrou nos pés de Madibe (isso, o falastrão que disse que Ronaldinho tinha somente nome, e que tinha absoluta certeza que iria se classificar para a grande final), que fechou o placar, 3 a 1. Receita perfeita para arrancar palavras de ódio e indignação da boca de todos os atleticanos, mesmo dos mais serenos, e tirar com todos os requintes de crueldade lágrimas dos mais "xiitas".
"Por quê?", indagam-se os alvinegros. Pelo sumiço de R10 do jogo? Creio que não. Pelo péssimo futebol de Jô, Tardelli e Lucas Cândido (além de Josué substituído)? Não somente por isso. Teria sido Cuca o culpado? Cuca pecou em pontos cruciais do jogo, mas não teve nem mesmo a chance de entrar no campo e jogar bola. Faltou aquilo. Aquilo, que os atleticanos costumam ver em partidas no Independência. Confiança. Convicção de que eram capazes de levar o caneco mais importante de todos para um clube. Coragem. Faltaram os 3 C's ao time da torcida mais chata do Brasil, que hoje decepcionou a mim e a toda nação que acreditava. Infelizmente, não deu, e vida que segue. Quem iria imaginar, 5 anos atrás, o Atlético aonde está? Nem o mais otimista dos torcedores. Com as palavras de Rafael Orsini, conformo-me com o resultado de ontem (parabenizando ao ótimo trabalho feito pelo Raja Casablanca), e aguardo ansiosamente pela busca do Bi da América:
"A tristeza me rouba palavras, mas assim como foi tudo, sua história e meu orgulho/amor é eterno. Eu te perdoo pelas falhas. Que venha 2014!"
Victor Foureaux (Twitter - @foureauxGalo)